Conforme a banda toca

foto retirada do site http://miojoindie.com

wado

“O movimento é de gangorra: alegria e prazer durante os shows, dor de cabeça na hora de pagar as contas”, assim começa o texto de uma matéria publicada na Gazeta de Alagoas e lançada na rede pelo site Scream & Yell (www.screamyell.com.br). O título da matéria é “Noites de Pêndulo”, já no site dá pra sentir mais o peso do que o texto trata: “Wado: entre a música e o concurso público…”.

Não é de hoje que se discute o papel do músico e a relação dele com o mercado. Sabe-se que no Brasil, esse caminho é tortuoso. Não é fácil fazer sucesso “de graça”. É preciso ser influente no meio, ou ter dinheiro para “dar garantias” a uma gravadora na hora de lançar um disco. Mas o músico catarinense, radicado em Alagoas, Wado, não quer mais saber dessas incertezas. Por isso, manifestou o desejo de prestar concurso público.

Em entrevista para a Gazeta de Alagoas, Wado, com 34 anos, se disse cansado. Segundo ele, é hora de “pagar a vida”, e não ter de depender mais dessa gangorra musical. Ele não pretende deixar a música, apenas vai colocá-la em segundo plano, para, digamos, não morrer de fome.

Coincidentemente, o texto da Gazeta de Alagoas, assinado por Carla Castelotti, cita logo no início a banda Macaco Bong, um dos nomes que me veio à cabeça assim que li o título do post no Scream & Yell. O Macaco Bong talvez seja hoje, o nome que mais represente os coletivos culturais voltados para a música.

Em resumo, dentro dos coletivos, ou seguindo a filosofia deles, o artista passa a ser ele próprio autor, protagonista, produtor e empresário. É o modo “independente de ser” levado ao extremo. Só que no coletivo, juntos, não só um artista, vários. Tudo lindo? Nem tanto.

Fato que acontece dentro dos coletivos, é que uma minoria de artistas, com mais renome, ou mais popular, principalmente na internet, acaba ganhando uma maior exposição. Já uma parte dos artistas que se apresentam, tocam para públicos pequenos, com cachês baixos, o que não traz benefício financeiro e muito menos divulgação quantitativa e qualitativa do trabalho. Um defensor dessa tese de que, os beneficiados são poucos, é o cantor e VJ da MTV, China.

China defende que as verbas públicas, utilizadas por esses coletivos deveriam ser mais bem distribuídas. Essa discussão vai longe, e para entender um pouco do que rola, vale ler o texto crítico do China no link http://chinaman.com.br/fora-do-eixo-e-longe-de-mim/. Tem também o texto de João Parahyba, também no site S&M, que resume um pouco o que pensa um lado da história: http://screamyell.com.br/site/2010/04/13/carta-aos-musicos-e-artistas/. Não posso de postar aqui, lógico, o lado do Fora do Eixo em resposta ao texto do China: http://musica.foradoeixo.org.br/index.php/2011/11/fora-do-eixo-mas-perto-de-tods/.

Mas a questão aqui não é essa discussão, e sim, o que leva um artista como Wado, cujo último disco (Samba 808) contou com a participação de grandes nomes da música nacional como Marcelo Camelo, Chico César e Zeca Baleiro, a pensar seriamente em prestar concurso público?

A resposta talvez seja a desilusão. Hoje mais vale o que a rádio toca, independente da qualidade, do que uma boa música. Com a internet o que se viu foi a ampliação de um nicho de mercado. Nicho esse que consome justamente o que vem da internet, e isso não dá um retorno real para o artista. Nas rádios, o que entra na programação, depende de vários fatores, mas o mais forte e desonesto é o jabaculê, o famoso jabá! Se não for assim, você parte para o lado, o dos coletivos, mas continua praticamente no anonimato e ainda assim tem que seguir o ritmo conforme a “banda” toca.

Curiosamente Wado também é jornalista. Ele foi mais para o lado da música, mas carrega o fardo de ter duas profissões que se assemelham. Hoje em dia, o jornalismo, assim como a música, está pulverizado na internet, nas redes sociais. O que se vê na mídia televisiva, impressa, e no rádio, é justamente um jornalismo que na sua maioria defende interesses. Um jornalismo jabazeiro, cuja qualidade… Ah, a qualidade! O que é isso diante de um leitor, um ouvinte, que muitas vezes aceita passivamente tudo aquilo que lhe é jogado na cara?

Texto publicado originalmenten o site do Espaço MOG: http://www.espacomog.com.br/do-pop-ao-indie-conforme-a-banda-toca/

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